Domingo, 3 de Fevereiro de 2013

um só, somos nove.

Somos um todo distantes, separados pelo mesmo mar, um todo açoriano. Há cheiro de ressalga em todos os cantos, ah a doce brisa de mar…

Quantas maravilhas existem nas ilhas de Portugal, onde o mar se funde com as nuvens e perdemos os rastos dos nossos sonhos, por já estarmos a viver num sonho. O sonho que é as nossas formosas ilhas.

O vento sopra ao nosso favor, senhores capitães do mar. As aves planam sobre as serras que são engolidas pelas grandes nuvens num dia de nevoeiro e, por vezes, quando as nuvens nos cobrem, temos a sensação de estarmos ao mesmo nível que o céu. Vivemos dia-a-dia a magia que a ilha tem, que só um açoriano a conhece tão bem. Aquela magia como quando o mar se junta com o céu e tomam uma só cor, ganhando a imagem de uma enorme maré que vem, prestes a cobrir-nos, ou até mesmo as paisagens tão únicas que falam por si mesmas. Somos testemunhas de um paraíso.

Que saudade brava tem aquele que sai da sua ilha, que só anseia pelo dia em que voltará a pôr os seus pés na sua doce terra. E quem vem cá, já não quer voltar á sua terra. É inevitável apaixonarem-se pelas ilhas.

As ilhas perdidas do Atlântico? Não, nada disso. Somos um berço de tradições com um rico e diversificado património. Já lá vão seis séculos de existência. Perdidas? Estão tão bem assinaladas no mapa de Portugal, que todos querem ver e conhecer. Ilhas que serviram de inspiração ao génio que é Vitorino Nemésio e Álamo de Oliveira, também aqui nasceu Antero de Quental. Ilhas criadoras de artistas, de génios; mas o mais importante, de boas pessoas.

A Santa Maria é a irmã mais velha das nove ilhas, mas a mais nova, o Pico, é a mais alta; tão alta que é tomada como o ponto mais alto de todo Portugal. Num bom dia, a ilha Terceira vê a ilha de São Jorge, e a Graciosa vê a Terceira; já o Pico e o Faial, esses são cúmplices do crime, ou até mesmo irmãos, visto que se vêm todos os dias, a toda hora. E apesar do Corvo e das Flores serem as mais longínquas, também elas fazem parte desta maluqueira toda; e ainda, por último, mas não menos importante, São Miguel que é tratado por capital dos Açores - se bem que não existe capital nenhuma-, ou até mesmo por ser o próprio arquipélago. Que triste ignorância de quem não sabe bem quem somos. Somos um todo vizinho.

Ilhas sobreviventes é o que somos, passamos agonias com as frequentes e intensas tempestades tropicais e mesmo assim, continuamos com os pés no mar. Bravura e coragem. Daqui ninguém nos tira. Em tempos desses, ajudamo-nos mutuamente, como uma única família. Possuímos todos do mesmo sangue quente açoriano, partilhamos o mesmo cordão umbilical formado por ondas e touradas á corda, por alcatra e festividades.

Nos dias de festas, saltam as cantorias com os pulmões cheios de voz. Todos saem á rua, rindo e convivendo uns com os outros. É a folia do nosso povo. Todos querem um pouco das nossas festas, e todos nós temos um imenso gosto em partilhar com o mundo o que é os Açores. Faz-te de casa, a minha casa é a tua.

Estamos no horizonte de Portugal, apesar de alguns se esquecerem, somos também parte do país que é Portugal. É verdade que fazemos parte do esquecimento dos nossos compatriotas do continente, que afinal não nos conhecem tão bem assim, ao ponto de não saberem quantas ilhas somos. Mas no fim do dia, o que importa é estarmos no coração dos açorianos que emigraram e dos que aqui vivem. Quem gosta dos Açores, gosta para o resto da sua vida e nunca se esquece do que viveu e aprendeu aqui.

Não tratamos ninguém por estrangeiro, porque assim, cada um de nós seria também um estrangeiro. As ilhas foram povoadas inicialmente por etnias diferentes, tudo pessoas diferentes com o desejo de encontrar um refúgio para uma vida melhor. Nós somos o refúgio de quem quer uma vida calma e segura para a sua família.

Como qualquer família, existem conflitos e brigas, talvez mais por sermos competitivos uns com os outros. Ser competitivo é saudável, mostra ambição e garra. Mas temos que ver que, por vezes, temos que pôr de lado a competição e agir todos como um só, em prol do bem da nossa gente.

Nove. Santa Maria, Corvo, Flores, Faial, Pico, Terceira, São Miguel, São Jorge e Graciosa; são nove, as ilhas que formam os Açores, um só arquipélago. Arquipélago, este, que ainda possui muitas histórias por viver, através dos seus, que contarão um dia aos seus netos e os netos aos seus filhos, e assim se passará um legado e as ilhas nunca serão esquecidas por aqueles que as trazem carinhosamente ao peito enquanto clamam o esplendor do nosso cântico. Nosso povo honrado, com o futuro á luz de o semear. Na mão, a sua bandeira que nos guia no alto do clarão. Vivemos sob o lema de liberdade. As estrelas que coroam os Açores, pedem para que ambicionemos por mais, para que floresçam mais ramos na nossa árvore já enraizada de cultura e cerimónias. Olhando para o passado, evoluímos muito desde então, graças á juventude de cada geração que foi quebrando, com tempo, paciência e persistência, o pensamento conservador, abrindo muitas portas, muitas oportunidades para quem pensava diferente da maioria.

Os jovens que aqui nascem são o futuro de um maior arquipélago, de um grandioso Açores. Quebrar barreiras é o que aqui fazem mais, espantando os idosos, mas tem que ser assim. Só dessa maneira levaremos o nosso nome a lugares que nenhum de nós conhece, só assim, divulgaremos a beleza das nossas ilhas. Temos que acreditar em nós próprios, como açorianos, e acreditar no quanto ainda podem crescer as nossas ilhas. Não nos contentemos pelo que temos, lutemos com garras e gritemos bem alto que aqui estamos, as ilhas do Atlântico, as ilhas de Portugal- os Açores!

O céu fecha-se sobre nós, e vivemos um sonho, longe de tudo e todos. Nove ilhas. Nove corações que batem fortemente como um todo. Um só, somos nove.

 

Espero que tenham tido um bom fim-de-semana. Lá vem mais uma semana.


 

publicado por Ar às 16:30
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7 comentários:
De Beatriiz a 3 de Fevereiro de 2013 às 19:10
Foi uma simples racaída, penso eu, também não posso sobrevalorizar tudo de mau que me acontece!
Obrigada desde já pelas tuas palavras de apoio e força, este é um dos motivos pelos quais prezo o nosso mundo dos blogs.

Ps. Parece que o meu gosto musical é top :) vamos lá ver se quando mudar outra vez de música vais gostar.
Beijinhooo querida :)


De Cris. a 3 de Fevereiro de 2013 às 20:09
exatamente :) e desde já, obrigada pelas tuas palavras.
e quanto ao teu texto... uau! não há como não adorar. depois de ler o que escreves-te deu-me aquele gostinho de ser açoriana e de como vivo num paraiso.

beijinhos.


De meninapequenina. a 4 de Fevereiro de 2013 às 21:37
Tenho um secreto desejos de ir aos Açores.
Muito obrigada!


De lou a 5 de Fevereiro de 2013 às 14:41
é bastante fácil, basta entrares em contacto com a joana (http://im-promptu.blogspot.pt/p/contact.html) dizendo que estás interessada e ela responde dizendo-te o que precisa :)


De Cláudia a 6 de Fevereiro de 2013 às 22:04
Sim, é das melhores sensações (:


De Cris. a 6 de Fevereiro de 2013 às 23:11
o meu problema não é não ter valor próprio (não é que a minha auto-estima seja muito alta também né), é mais não ter valor para as outras pessoas. é eu fazer de tudo por uma pessoa, e ela simplesmente se importar mais com pessoas que nunca se preocuparam... é isso, e magoa..


De meninapequenina. a 8 de Fevereiro de 2013 às 14:36
Oh sim,e quando tiver dinheiro visitarei!
Oh obrigada!


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